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sábado, 6 de fevereiro de 2016

"Sete Ovelinhas tresmalhadas no Monte" ou "O treino de hoje" - 5 de Fevereiro 2016

Monte Serves, Vialonga, 5 de Fevereiro de 2016


Sete ovelhas pastavam num prado verde, resplandecente, sob um Sol brilhante e quente num céu azul decorado com algumas nuvens alvo branco, numa calmaria estonteante só interrompida por um ou outro balido acompanhado pelo som do chocalho e pelo chilrear dos passarinhos.

Este seria o cenário idílico propício a uma bela e encantadora história que poderia contar.

Mas não! As nossas ovelhas saíram dos seus currais antes das cinco da manhã e reuniram-se no vale noite escura ainda.Juntas saíram para o campo sob um céu negro salpicado de brilhantes estrelas e uma Lua sorridente.

Algumas correm desenfreadas tal é a sede de Monte, causada por ausências forçadas e consequente saudade e necessidade urgente. Outras seguem aquelas e sem saberem muito bem o caminho, aventuram-se Monte acima.

Falta-lhes o pastor e o fiel canino, que as guiaria e manteria juntas pelo caminho certo, sem as perder de vista. Mas não. Elas vão sós e vão agitadas. Umas avançam destemidas, outras recuam e seguem por caminhos distintos e já não se encontram. A que melhor poderia fazer de pastor, acompanha a ovelhita mais traquina, a que saltita com ligeireza, bale como nenhuma outra, escolhe caminhos e envereda por trilhos ao acaso. A outra, a que poderia melhor guiar, acompanha-a pois sabe da inconsciência desta ao atirar-se assim noite dentro e cuidadosa e protectora, acompanha-a sem um balido.

Esquecidas, outras cá atrás, duas delas completamente às escuras por problemas técnicos, avançam cautelosas e nervosas. Já não sabem das outras.Há caminhos e bifurcações e já não avistam o resto do rebanho.

Hesitam, balem,cada uma para seu lado, avançam e recuam de novo.

O tempo é especialmente limitado hoje, para a maioria e há protestos velados, e muita agitação por não se perceber o porquê de tantas invenções. Vão avançando às cegas, orientando-se pela bússula interior de cada um e várias são as vezes que não sabem onde se encontram. No Monte, sim, isso é certo, mas gostariam de tomar o caminho mais curto e não sabem por onde ir.

Por fim, depois de quase 11 km percorridos em 1h27m, em que a subida ao Monte Serves foi obrigatória, juntam-se de novo no vale de onde partiram e regressa cada uma delas ao seu curral. E foi assim o treino de hoje: sete ovelhinhas tresmalhadas no meio do Monte.

Treino diferente, mas, muito bom.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"Nada de especial, parece…" ou "O treino de hoje"

Nada de especial, parece…

O equipamento é quase todo preparado de véspera. Desorganizadamente mas as peças  estão todas lá, espalhadas entre os pés da cama, a cómoda e até o móvel de entrada onde fica o elástico para prender as chaves para não irem a chocalhar o caminho todo, o que é, como todos sabemos, muito irritante. E ela não quer de forma nenhuma irritar os companheiros de treino. Gosta deles e sem eles até podia treinar na mesma, apesar de ser pouco provável, mas seria sempre completamente diferente. Nem precisam conversar. Estranhamente, em passo de Corrida a companhia sente-se pela presença do espírito e do corpo do outro, quente, a suar ao nosso lado, mesmo calado que vá. Hoje, ela estava especialmente calada. Vai deliciada com a musicalidade do timbre da pronúncia transmontana. Adora ouvir os planos, a organização e o planeamento dos treinos deste rapaz com vista a altos voos. A provas que ela nem sonha alcançar, mas sonha, sonha baixinho, ainda, com algumas mais modestas. Como se ainda houvesse esperança e há! Ouve-o falar e viaja, alma dentro, busca aquela rapariga que em tempos foi capaz de sonhar alto, de se organizar, de planear, estruturar e trabalhar com vista a um determinado objectivo. Hoje não há qualquer motivação, qualquer objectivo para além da busca incessante de si mesma, de conforto e algum bem-estar físico e mental. É por isso que corre e continua a correr. Gostaria de ter ouvido a aventura no meio dos Abutres do outro rapaz, mas nem sente energia para puxar por ele, nem mesmo quando ele sugere o regresso para o ano e a estreia dela lá, ela confortavelmente fica calada, na sua concha e ouve apenas. Não há energia para mais. Nem para falar nem para programar o que quer que seja. Hoje não. Apenas corre. Nada de especial, parece…

Hoje foram pelos Caminhos de Fátima, terra batida e algumas poças de água e alguma lama. Não chegaram ao Rio Trancão. O tempo disponível não lhes permitiu. Ela tem pena de não ter chegado ao Rio, mas corresse mais depressa, ora essa, temos pena! 

Correram 13 Km e demoraram 1h21m. Um bom treino. Uma excelente alternativa a pensamentos que lhe assomam da alma nos últimos tempos. Mais leve e mais liberta agora, ela toma o seu duche e sai para o trabalho. Melhor, muito melhor. Foi assim o treino de hoje, nada de especial, parece… 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Há monstros na minha cama - o treino de hoje - Monte Serves

Há monstros na minha cama

Por demasiadas vezes o equipamento para correr, preparado de véspera e ao fundo da cama, fica o resto do dia exactamente como o deixei, as peças ainda dobradas, imaculadas como saem da gaveta, bem cheirosas, apesar das intenções ao deitar serem as melhores e as mais determinadas.

Depois, toca o despertador ou até acordo eu antes dele, e eles, lá estão, a prenderem-me à cama, pesados como pedra tumular, fria e húmida onde viscosas centopeias se passeiam, a impedir-me os movimentos e a esmagar-me o corpo e a mente contra o frio do colchão.

Acorrentam-me, esmagam-se, sufocam-me e asfixiam-me e eu mais uma vez não me levanto para treinar. Tem-se repetido este episódio nos últimos dias, como se de filme de terror enfadonho se tratasse.

Hoje, o medo do episódio se repetir, como um carma, estava lá. Assim como os monstros.

Monstros na minha cama. No meu quarto. Na minha casa. No meu carro quando me cruzo tentadora e desafiadoramente com os camiões no negro do asfalto a uma velocidade considerável. Há monstros em mim.(*)

Hoje foi mais um dia em que o despertador tocou antes das 5 da manhã. E antes que eles despertassem, ainda sem acender a luz ou calar o galo, estrangulando-o, sacudo a roupa da cama para trás com uma violência assustadora. Não! Não vais deixar que despertem sequer! Antes que eles tomassem consciência do que eu tencionava fazer, antes que eles me enleassem com fios de baba como teias firmes tão fortes, frias e duras como o metal das grades da janela de uma prisão, antes que...Upa! E já estou de pé. Um segundo a mais e poderia ser fatal. E depressa me vejo na rua e reencontro os amigos.

Reencontro feliz, sorrio e quase os abraço, grata e feliz, não fosse uma qualquer timidez estúpida. Gosto deles. Gosto mesmo! E se não fossem eles, garantidamente não estaria aqui hoje. Obrigada.

A volta foi calma e por ser calma e todos terem a paciência necessária, não me custou tanto como supus. Nevoeiro denso, temperatura amena e volta ao Monte sem o subir. As ervas estão cobertas de humidade e há lama. Acompanho-os e quando não os acompanho há sempre alguém a puxar por mim calmamente, respeitando as minhas dificuldades.

E assim ao longo de 1h20m em que percorremos 11,800 Km, fui libertando monstros, que afinal sou eu que os prendo, que os alimento, que os faço crescer. 

Terminámos o treino e sinto-me muito mais leve, não propriamente por ter perdido peso (mas também) mas especialmente porque já não carrego tantos monstros. Ou estão mais leves, talvez. Porque todos temos os nossos monstros, mas vivem e crescem em nós apenas se nós os alimentarmos.

3ª feira (e antes disso, claro), vou continuar a exorcização e conto convosco. Obrigada malta!


(*) - quem os não tem?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Trail Centro Vicentino da Serra - Portalegre - 10 de Janeiro de 2016

"O meu Trail Vicentino" ou "Como foi horripilantemente fantástico"

"Os fantasmas que trouxe da Serra de S.Mamede habitam em mim ainda hoje e suspeito mesmo que tenha de lá voltar, para os devolver onde pertencem"

Primeiro foi o desafio lançado por um amigo. O entusiasmo de braço dado com o medo. As dúvidas, a coragem, e as inscrições a decorrerem em bom ritmo e em vias de esgotarem, e quando dei por mim estava inscrita. Não sem ponderação, note-se. Seria o meu maior desafio em termos desportivos. Em Trail seria a maior distância alguma vez percorrida (42 km) assim como em subida acumulada (1687m). No entanto, acreditei que seria possível. Treinei alguma coisa e continuei a acreditar. O espírito seria correr quando pudesse, caminhar quando o desnível e a técnica necessária (de que eu sou uma completa aprendiz) assim o exigisse e  apenas uma nuvenzinha negra me fazia temer poucas coisas mas que poderiam ser as suficientes para me fazer não chegar ao fim: uma queda séria com danos físicos graves, perder-me de forma irrecuperável para a prova e a reacção do corpo ao frio que sabíamos que iria fazer, acompanhado de chuva e vento aliado à longa duração da prova. Um terreno desconhecido portanto, tornando legítimos não digo os medos mas as preocupações.

O grupo Runners da Frente Ribeirinha da Póvoa, sempre presentes, apoio incondicional ao longo dos meses, nos treinos e agora também no dia da prova. Não estava só.















Mas nestas e outras coisas, podemos ter todo o apoio do mundo mas o fundamental somos nós e está em nós. Assim, parti confiante mas também apreensiva confesso.


Ainda sigo uns metros com a Paula Cristina e a Laida, e tento não as perder, mas elas têm outra pedalada.


Tenho de as deixar ir e isto é mesmo assim: cada um tem de fazer a sua prova e eu só aspirava acabar a prova e acabar dentro do tempo limite (8h30m). Acreditava que era possível mas sabia que não podia "descuidar-me" muito, sabendo também que se apertasse muito, pagaria mais tarde. Por isso fui mantendo o meu ritmo confortável, não me preocupando (muito) de ter menos que meia dúzia de atletas atrás de mim. 

A Serra é belíssima. Deslumbra-me em cada passada, em cada trilho, em cada recanto, em cada paisagem, em cada pedra e em cada raíz ultrapassada, em cada riacho atravessado. A chuva foi sendo uma constante. A lama, também. Os riachos quase diria que também. Ia eufórica com tudo aquilo. Trilhos desafiantes (para mim), cordas para nos ajudar a passar os riachos onde a água borbulhava, e em zonas mais inclinadas, e a chuva, sempre a chuva por companhia. Ia deslumbrada com a Serra. Tanto que dou por mim no km 12 e surpreender-me por já ter percorrido tantos kms. Vou bem. A Organização 5 estrelas. Excelentes marcações, tanto que fiz 85% da minha prova sozinha e nunca tive dúvidas por onde seria o caminho a seguir. Corro quando o terreno o permite, caminho nas subidas, sigo com mil cuidados nas descidas assim como nas travessias dos riachos onde fui cair direitinha que nem um fuso, aproveitando o rápido borbulhante das águas e por instantes temi ir parar ao Oceano face à violência das águas, em conjunto com a corrente e as lajes inclinadas. Um braço agarra-me e uns olhos claros perguntam-me se estou bem. E sim, estou. É levantar e seguir e até rir com o cómico da cena. Continuo bem, a usufruir de todo aquele verde, de toda aquela água, quer a da chuva quer a dos riachos. Vou feliz e bem.

Chego sensivelmente a meio da prova (21 km) e vou com 4h14m. É o primeiro alerta. A continuar assim, e dificilmente conseguiria continuar assim pois para além do cansaço se ir acumulando, os últimos 12 km já tinham sido anunciados como terríveis, iria chegar à meta mesmo em cima da hora limite: 8h30m de prova! Assalta-me por essa altura a nítida certeza que não chegaria à meta a tempo. Atitude derrotista ou vamos tentar? Vamos tentar! Chego ao Posto de Abastecimento 3, no km 22. Chove quase torrencialmente. Admiro os membros da organização, debaixo de toldos oscilantes com a chuva e o vento e a simpatia fabulosa. Bons abastecimentos, como fruta, e até bebo um café quente junto com biscoitos. Soube mesmo bem. Um companheiro de prova fica por ali, diz estar com cãimbras. Eu sigo. Agora sozinha e penso alcançar o próximo Posto de Controlo, ao km 29.

Vou bem. Muito bem. Sou eu e a Serra. O vento uiva. As árvores sussurram e dançam no alto. Por vezes protegem-me, por vezes temo que uma se parta e me caia em cima. As luvas ficaram encharcadas e as mãos gelam ainda mais com elas calçadas. O vento e a chuva fustigam-me em zonas desabrigadas. Os lábios gelam. Os pés enterram-se na lama até ao tornozelo. Nem vale a pena escolher o caminho. É seguir em frente. Encontro membros da organização. Falta muito para o próximo posto? 3 ou 4 km, dizem-me mas podem chamar alguém para me vir buscar. Não! Sigo! Gosto desta solidão. Não vejo ninguém atrás nem à frente. Sou eu e a Serra. E o vento. E a chuva. E a terra. E a água a cantar furiosa nos ribeiros. Os trilhos são ribeiros por onde a água corre em sentido contrário ao meu. Vou enganada eu ou é a água que vai? Tento abstrair a mente mas o gelo apodera-se do meu corpo e mal me consigo sentir. Preciso aliviar a bexiga e a custo baixo os calções. Quando os levanto, e vejo que a parte da frente está no lugar, não sei como está atrás. Molhada, fria, não sinto as pernas, o rabo, as mãos...não me sinto simplesmente. A custo lá me certifico que estou vestida e sigo como posso. Mais vento frio a cortar-me as faces. Encontro de novo membros da organização o que se repetiu mais à frente, mais uma vez oferecem ajuda mas eu prefiro seguir. Até ao próximo Abastecimento. Subo ao ponto mais alto da Serra e sinto uma plenitude indescritível. Sempre sozinha. Há uma névoa a envolver a serra, a envolver-me a mim. O ar cada vez mais frio entra-me pelas narinas, percorre as vias respiratórias e roça o coração que estremece. Não estou com frio, não sinto frio, apenas estou fria, gelada ao ponto de quase perder a sensibilidade. Resta a mente e um corpo em automático. Respiro fazendo uma concha com as mãos para dessa forma aquecer as mãos e também tentar que o ar inspirado não seja tão frio. Avanço com dificuldade. No entanto a Serra nunca perdeu o encanto. Nem por um segundo. Bem pelo contrário. Mostra-se como ela é. Ríspida, implacável, magnífica e bela. E então, ele surge, o medo. O medo! Em simultâneo com o deleite, o medo! Acreditar nesse momento que tinha tentado dar o passo maior que a perna. Que não estou à altura desta Serra e desta beleza. Dura! Medo! Respiro com dificuldade e o ar parece não ser devidamente absorvido. Temo. Temo pela Vida. De rosto molhado pela chuva, desespero e chora a alma num grito mudo. Não quero morrer! E nessa hora, no meio da névoa, surgem os espectros ao fundo do caminho, a surgir do arvoredo. Para me levar talvez. Não sei. Tenho medo! Lembro-me da minha filha e choro em silêncio sem uma única lágrima. E nessa hora, como todos os descrentes que só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões, peço a uma entidade qualquer, a alguém que me ouça, que me tire salva dali, que eu prometo, eu prometo nunca mais me meter noutra ..."assim". Há uma casa em ruínas, abandonada no meio da Serra. Imagino a vida de outrora ali. As pessoas, um ou dois cães e crianças. Quase que as ouço gargalhar. E sinto chamarem por mim, e se eu me abrigasse aqui? E se eu ficasse aqui? E se eu morresse aqui? Mas o cenário é devastador! O telhado destruído, a casa em ruínas. E uma chama impele-me para a frente. É continuar. É continuar! E em modo aterrorizado e alienado chego ao Posto Controlo 4: Km 29! Paro o cronómetro que marca 6h21m desde que dei início a esta aventura inesquecível e indescritível. Fico por aqui. Anuncio. Mas está mal, perguntam. Não, não estou mal mas não quero é ficar! Respondo lúcida. E sim, se seguisse, esta história não podia ser assim contada, nem desta forma, nem por esta rapariga.

Dei a prova por ali terminada. Triste, sim. Afinal não foi para isto que eu cá vim! Fiquei literalmente no meio da Serra, como se pode ver aqui, na minha prova. Uma prova inacabada. Uma viagem deixada a meio. Uma porta por abrir que deixei intencionalmente fechada porque assim teve de ser.

E promessa reformulada: em Maio voltarei à Serra de S.Mamede, para apaziaguar as hostes e devolver os fantasmas à Serra e para o ano volto ao Vicentino, para acabar a minha prova!





Organização: Trail Centro Vicentino da Serra  - Nota máxima com, excelentes marcações, apoio no terreno, bons abastecimentos, segurança, prémios presença, tudo 5 estrelas 

A Organização no facebook, aqui

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Os Treinos no Monte, A Rapariga, Homens e Ratos

Estavam todos debruçados sobre ele. Incidiam a luz forte dos frontais no solo formando um pequeno círculo. Meio dobrados, mãos nos joelhos, observavam algo em silêncio. Ela, que vinha cá mais atrás, ao vê-los assim, adivinhou que haveria algo interessante para observar. Um rato! Alguém exclama. Ai um rato não. Grita alguém assustada. Oh…um ratinho do campo. Exclama ela. Primeiro o animal andava também numa espécie de círculos, ofuscado pelas luzes, assustado, esquivo, nervoso. Afinal, quem não tem medo do desconhecido? De situações novas e novos desafios? Depois aconchegou-se encostado a uma pedra e deixou-se ficar assim por instantes, julgando-se seguro pois a sua pelagem confundia-se com a própria pedra, sobressaindo apenas os seus olhinhos redondos brilhantes num piscar contínuo, fixando ora um rosto ora outro, em movimentos oculares rápidos e nervosos. E assim ficou, quietinho, apenas mexendo os pequenos olhinhos. Depois, com todo o respeito merecido e com a suavidade da seda alguém o tocou com a ponta de uma erva, e o ratinho, agora sem medo, com toda a coragem do mundo, ergueu-se e subiu a pedra num passinho rápido mostrando o seu corpo, a caudinha perfeita e bela, e por um instante, corajoso, parou, virou-se para ela, assumindo-se, mostrando-se como um livro aberto, sem medo de ser ele próprio, com as suas forças e fraquezas,  e enfrentando-a a ela assim como a todos os outros, olhou-a pela última vez, piscou-lhe o olho, e seguiu com a coragem de um Homem.

Eles, levantaram-se todos, alguns já tinham mesmo seguido, desinteressados de lições esquecidas, e retomaram o treino.

É assim treinar no Monte às cinco e meia da manhã, entre homens e ratos.



E foi assim hoje. Quatro gaiatas e seis gaiatos enfrentaram a noite especialmente escura e foram não para o Monte mas para a Mata. Do Paraíso esta, e entre trilhos e rampas, a conversar muito e a recordar quedas aparatosas de que hoje se riem, foi um treino muito animado e agradável! Percorreram 9,5  Km e demoraram  1h13m. No final, reuniram-se todos no Jardim da Flamenga e tomaram chá quente acompanhado de bolachas. São assim os treinos no Monte. Vens para o próximo?

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Treinar no Monte (Serves) às 5:30 hrs da manhã é assim:



Treinar no Monte às 5:30 hrs da manhã é assim:

Partem noite cerrada , como acontece de há largas semanas para cá. Três rapazes e duas raparigas, hoje. A volta vai ser "aquela", e estamos por conta do Nuno. Ele adora esta volta. Nós também, mas não precisamos ir a puxar tanto, pensa ela, quase sem fôlego e com pouca força nas pernas. Pensa até mandá-los embora que ela o melhor era seguir sozinha porque ia mais lenta e não se ia perder! Claro que ia...Mas havia de se reencontrar por certo!  Ou então dar o treino por concluído e voltar para trás, era outra hipótese. Fica calada e corre como pode, ofegante. Claro que ninguém é deixado para trás mas hoje, fosse do ritmo ou dela, a coisa não esteve fácil para esta rapariga. Cala-te e segue. Pensa. E caminha. E corre. E caminha e corre. Valem-lhes os companheiros que a rebocam e conversam com ela, ao que ela mal consegue responder... E depois, depois quando o terreno já não sobe, já vai mais confortável e dá graças por não ter voltado para trás e abortado o treino. Já vai bem agora. Corre com eles e com ela própria. Já vai bem agora!

Há um sapo no caminho. Quase o pisa. Num reflexo rápido alarga a passada para o evitar pisar e aterra o pé direito poucos centímetros à frente do batráquio. Olha um sapinho! Um sapinho! Quase grita com tamanha alegria! Tem consciência da infantilidade da sua reacção e do que esta possa dizer dela aos outros, mas isso não lhe importa mesmo nada. Importa-lhe sim o que lhe diz o coração e sente genuinamente. Pára e volta-se, baixa-se para o pequeno animal, sensivelmente do tamanho do seu punho fechado, e nesses instantes delicia-se com a imagem. Um sapinho lindo que a fixa atentamente e pestaneja os seus olhinhos redondos, vivos e muito brilhantes. Absolutamente lindo! Ela sabe que a luz do frontal dela o encandeia e ele não deve estar a ver nada, mas gosta de pensar que existe um elo de comunicação e uma mensagem forte e de facto há pois tem a certeza que nesse instante o pequeno sapinho sorri, tocando-lhe a alma e ela até parece que o vê respirar e sente naquele instante a vida a palpitar na sua mais pura essência. Tem o dia ganho. Levanta-se e segue juntando-se ao grupo para continuar o treino. Definitivamente mais rica!

Correu e caminhou 1h27m e percorreu 11,560 Km



sábado, 12 de dezembro de 2015

O Monte, o Sol e o Treino







Guarda na retina este Sol. 

Céu em tons laranja a irradiar da estrela, laranja forte, primeiro só a espreitar sobre o Tejo, a emergir dele como se dele nascesse, em forma de meia lua. 

Depois já alta no céu, reflectida nas águas, círculo perfeito, pincelado pelas nuvens que parecem atravessar-se-lhe à frente numa linha contínua, dividindo-a em duas. 

Guarda! 

Guarda na retina este Sol, este dia que nasce, este céu apaziguador e estas águas serenas. Guarda na alma, lavra no coração este momento. Não se repete. São dádivas do Monte. Guarda-as e preserva-as. Lembra-te delas quando escurecer, e volta, volta sempre que o Monte sempre te há-de abraçar.

A rapariga percorreu uma distância de 10,730 Km e demorou-se no percurso 1h16m

Palrou, palrou e palrou. Que bem lhe soube conversar! Um magnífico treino e um melhor começar de dia em boa companhia. Porque sozinhos somos muito pobres.

Até amanhã querido diário

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Reflexões e acções



É verdade que, independentemente do que nos rodeia, temos tudo dentro de nós: força, coragem, medos, fantasmas, capacidades e limitações, armadilhas e rasteiras que nós próprios criamos, cobardia, comodismo, desespero e a própria morte, sempre ali sentada bem perto de nós,  a tocar-nos na anca, a oferecer-nos colo e a sorrir-nos à espera, de mão estendida, assim como do outro lado temos a vida com o mais belo e resplandecente sorriso a estender-nos igualmente a mão para nos abraçar. 

E se também é verdade que independentemente do que nos rodeia, a nossa vida é o que alimentamos dentro de nós, e consequentemente se espelha pelo que nos rodeia, também é verdade que o que nos rodeia nos pode influenciar,  pouco ou nada ou tanto que condiciona e altera o nosso eu. Da mesma forma, todos os nossos actos, do mais simples bom dia ao desconhecido na rua até aos actos supostamente bem mais significativos, nós estamos a influenciar o outro e eventualmente a alterá-lo e a levá-lo por um novo caminho. Simplesmente porque sozinhos somos muito pouco ou mesmo nada.


A propósito disto, ou não, hoje, feriado, levantei-me às 6 da manhã e fui correr. Mas não sozinha. “Levaram-me” e eu agradeço com a importância que se calhar nem se apercebem e ainda bem que assim é. Uma volta fantástica pelo “meu” Monte a durar 2h03m num percurso de 15,140 Km. A deixar-me viva por e para mais um dia! Obrigada rapazes!




sábado, 28 de novembro de 2015

A caminho de Sevilha, com Portalegre, Sintra e outras pelo caminho...

Depois de ter atingido uma forma como há muito, muito tempo não tinha, e ter feito aquela marca fantástica na Meia das Lampas, a 12 de Setembro (1h37m), por motivos vários, deixei-me cair. 
Continuei a treinar, fiz a Maratona do Porto, mas a forma das Lampas onde está?

8 quilos a mais (sim, em 2 meses!), motivação a roçar as ruas da amargura e vai-se lá saber porque o ser humano é tão humano e eis que a rapariga se encontra a 12 semanas da Maratona de Sevilha onde quer fazer a sua 7ª Maratona e tem muito trabalho pela frente.

Para além disso, tem as pernas em muito mau estado. Não está propriamente lesionada, recusa-se a aceitar o facto, mas continuam a doer-lhe imenso os tornozelos, os joelhos, tendões de aquiles, gémeos e outros músculos e tendões de que desconhece o nome e se encontram todos nos membros inferiores. 

Claro que foi a carga para a Maratona, com Trilhos pelo meio, e claro, depois a recuperação não se fez. Oito dias depois da Maratona foi fazer os quase 27 km no Trail da Arruda e nunca o deveria ter feito. Ou antes, foi muito feliz etc e tal, mas as pernas, as pernas meus amigos, chiam como leitões na matança! E assim continuam. Com mais ou menos paragens, mas as dores continuam lá! E nem sabemos muito bem o que fazer para as eliminar. 

Entretanto, ontem foi correr no VII Treino Nocturno das Lampas e correu feliz, apesar das dores, 21,050 Km em 2h07m, só mais meia hora do que fez há 2 meses, e não pensem que foi porque quis. Não fez ontem mais rápido simplesmente porque não conseguiu! 

Voltaremos ao tema, porque a organização da Meia Maratona das Lampas, organizadora deste treino assim o merece. Mas por agora fica apenas esta imagem de 3 amigos felizes depois de correremm uma "Meia Maratona" numa noite ventosa.

domingo, 22 de novembro de 2015

XII Maratona do Porto - 8 de Novembro de 2015

Só para que fique registado e amanhã possa recordar com mais facilidade para além da memória, pois por agora não há tempo nem motivação para dissecar a experiência, como seria merecido: 

Corria-a em 3h57m37s  (a minha 2ª melhor marca na distância)